Ansiedade: O que é e como lidar

Ansiedade é um dos transtornos mentais mais comuns na humanidade, gerando desconforto e sofrimento para um número cada vez maior de pessoas. A ansiedade atinge todas as faixas etárias, da infância ao idoso. As mulheres são mais ansiosas que os homens, possivelmente por características biológicas e hormonais ligadas ao gênero, mas também em função da sobrecarga de atividades e cobranças sociais que as mulheres estão expostas. O Brasil lidera as estatísticas de ansiedade. Felizmente, existem ferramentas muito eficazes para o controle da ansiedade, propiciando uma vida plena, serena e confortável.

REAÇÃO DE LUTA OU FUGA.
A ansiedade fisiológica é um mecanismo natural de adaptação, sobrevivência e autoproteção. Diante de uma situação reconhecida como ameaçadora ou perigosa ocorre uma reação neuro-hormonal chamada de reação de luta ou fuga, onde a pessoa se prepara para enfrentar essa situação perigosa. Entretanto, algumas pessoas passam a ter sofrimento, prejuízo pessoal, social ou ocupacional em situações do cotidiano onde há uma interpretação equivocada, exagerada ou desproporcional do perigo aos quais estão expostas. No transtorno de ansiedade o medo, que é uma reação de alerta em resposta a uma ameaça conhecida, passa a estar presente em situações do cotidiano, onde o perigo é imaginário, mas as reações de ansiedade são reais, intensas e desconfortáveis.
Na reação de luta ou fuga ocorre uma ativação do sistema nervoso que prepara o ser humano para enfrentar os perigos. Assim, diante de uma situação interpretada como ameaçadora, ocorre uma descarga de adrenalina levando a um estado de alerta para enfrentar o perigo. No aparelho cardiovascular ocorre a aceleração do coração, que passará bater mais rápido e forte para mandar mais sangue para a musculatura, enquanto os vasos da superfície se contraem e a pele empalidece, protegendo assim a pessoa de um ferimento e priorizando o fluxo de sangue para a musculatura e cérebro. A respiração passa a ser mais curta e rápida, para eliminar mais eficazmente o CO2 produzido na luta ou fuga. Os músculos ficam tensos e ocorre um tremor para uma pronta resposta de força contra o perigo.
Estes efeitos são adaptativos e autolimitados nas situações fisiológicas, porém são desagradáveis e geram sofrimento na ansiedade patológica.
Outro hormônio que aumenta em situação de estresse e ansiedade é o cortisol, que pode levar a alterações da resposta imunológica do organismo, que ficará mais vulnerável a determinadas enfermidades, como doenças infecciosas.


SINTOMAS FÍSICOS E EMOCIONAIS
A crise de pânico é uma reação de ansiedade intensa e desproporcional, pois neste caso o perigo é imaginário, a avaliação do perigo é distorcida e os sintomas como palpitação, respiração curta e rápida, dificuldade para respirar, sudorese, tremores, tontura, elevação da pressão arterial, são interpretados como muito desconfortáveis e os próprios sintomas passam a ser percebidos como ameaçadores. Os sintomas vão aumentando em intensidade nos primeiros minutos da crise, atinge um platô, em seguida os sintomas diminuem e geralmente após alguns minutos de intenso desconforto os sintomas desaparecem.
Os sintomas físicos de ansiedade são semelhantes aos descritos na crise de pânico, e os sintomas psíquicos são: preocupação excessiva, tensão, apreensão, inquietação, insegurança, sensação que algo ruim irá acontecer, dificuldade de concentração, déficit de memória, sensação de estranheza, desrealização e despersonalização, nervosismo, irritabilidade, intolerância, pensamentos catastróficos, medo de perder o controle, medo de ficar louco, medo de morrer, sensação de morte.
Nos aspectos emocionais 3 características são marcantes e estão usualmente presentes, que são: o medo desproporcional, a preocupação excessiva e a intolerância a incertezas. Para algumas pessoas, a percepção da impotência e falta de controle de determinadas situações geram ansiedade.

ASPECTO SOCIAL
Vivemos numa sociedade doente que produz pessoas doentes. Uma sociedade com valores distorcidos como o individualismo, o consumismo, a ganância, hedonismo, perfeccionismo, valorização da fama, ditadura da aparência e do sucesso, geram pessoas inseguras, ansiosas e infelizes.
Os pais podem exercer um papel significativo na origem da ansiedade, pois reproduzem os valores da sociedade, colocam expectativas exageradas nos filhos e com frequência apresentam aos filhos um mundo mais perigoso do que ele realmente é, muitas vezes são críticos, superprotetores e controladores. Quando a criança se arrisca e os pais superprotetores alertam sobre o perigo, enfatizam o risco e desprezam a coragem, podendo contribuir para o desenvolvimento da ansiedade.
A interação de fatores genéticos com as vivências ao longo da vida, particularmente na infância e adolescência, contribui para o desenvolvimento da ansiedade. As experiências vividas do que é visto, ouvido ou sentido repetidamente ou sob forte impacto emocional, são memorizados e levam a uma programação mental, ou seja, a formação de crenças disfuncionais. Estas crenças disfuncionais estão relacionadas com pensamentos negativos e comportamentos não adaptativos causando e mantendo a ansiedade.

PROCESSAMENTO COGNITIVO
No transtorno de ansiedade ocorre um desequilíbrio entre a avaliação do perigo e a capacidade de enfrentá-lo. A ansiedade é muitas vezes causada pela interpretação exagerada do perigo, como se fosse colocada uma lente de aumento nas situações perigosas. Por outro lado, a pessoa ansiosa subestima seus recursos e habilidades para enfrentar essas situações.
No processo terapêutico para abordagem da ansiedade a pessoa deverá rever a relação do perigo com sua capacidade de enfrentá-lo.
O medo fisiológico e adaptativo tem por objetivo a proteção física, emocional e social. Mas o medo desproporcional gera sofrimento, prejuízo e limitação. O medo pode se transformar no cárcere da emoção, quando ocorre um aprisionamento emocional. A pessoa passa a evitar a situação temida. Segundo Robin Sharma os medos que não enfrentamos se tornam nossos limites.
Podemos identificar 4 camadas para o medo: integridade física, autonomia e controle, conexão social e senso de valor.
A primeira camada do medo é a integridade física, que busca a proteção corporal para proteger o indivíduo de tudo que possa ferir, mutilar ou até matar. Aqui o medo de um animal selvagem e feroz é adaptativo, mas o medo de barata é um transtorno.
Na segunda camada está o medo de perder a autonomia ou perder o controle. Neste caso, situações como estar num elevador, avião, trânsito ou diante de um médico que possa trazer uma informação sobre uma enfermidade é experimentada com desconforto e sofrimento.
Na terceira camada está o medo de estar só, de ser abandonado ou estar desamparado. Está nesta camada a ansiedade de separação que a criança pode sentir quando separada ou distante dos pais, ou aquela pessoa que tem medo de ser excluído socialmente, ou viver na solidão.
Na quarta e última camada está o medo da desaprovação, do fracasso e humilhação, que desencadeiam sentimentos de culpa e vergonha que comprometem o senso de valor pessoal.
Também nesta última camada está o perfeccionismo que é o medo de errar, e também a intolerância aos próprios erros e falhas que geram culpa e vergonha, ou erros e falhas dos outros que desencadeiam irritabilidade.
A psicologia cognitiva nos ensina que o medo e a ansiedade são frutos de pensamentos negativos e catastróficos que tem sua origem em crenças disfuncionais, e como consequência, levam a comportamentos e ações desadaptativas como a evitação da situação temida.

CLASSIFICAÇÃO DA ANSIEDADE
A ansiedade pode ser classificada em diversos tipos dependendo de determinadas características da apresentação dos sintomas: ansiedade generalizada, fobias específicas, transtorno do pânico, ansiedade social, estresse pós traumático e transtorno obsessivo compulsivo. Algumas pessoas desenvolvem a agorafobia que é a manifestação de ansiedade em lugares ou situações onde a fuga pode ser difícil ou o socorro pode não estar disponível, assim esses lugares ou situações passam a ser evitados.
Muitas pessoas desenvolvem sintomas depressivos associados a ansiedade caracterizando um transtorno misto de ansiedade e depressão, outras caminham na direção do uso, abuso e dependência de tabaco, álcool e outras drogas ou transtornos alimentares.
As pessoas com sintomas de ansiedade precisam passar por uma avaliação médica para a realização de exames clínicos e laboratoriais com objetivo de excluir outras doenças que podem apresentar sintomas semelhantes aos da ansiedade como hipertireoidismo, hipoglicemia, doenças cardiovasculares ou endócrinas.
O psiquiatra Augusto Curi descreve a Síndrome do Pensamento Acelerado, onde a pessoa apresenta pensamentos excessivos, reativos e acelerados, levando aos sintomas de ansiedade, insatisfação com a vida, impaciência, cansaço físico e mental, sofrimento por antecipação, dores de cabeça e dores no corpo, déficit de memória, dificuldade de concentração, distúrbios do sono. Na correria do dia a dia, buscando fazer cada vez mais, com os olhos focados no futuro, ocorre um distanciamento do presente.

TRATAMENTO
É importante destacar que ansiedade tem tratamento, que alivia os sintomas, a pessoa deixa de ser refém da ansiedade e é liberta do cárcere da emoção.
O tratamento aborda aspectos medicamentosos e psicológicos.
No aspecto psicológico o portador de ansiedade precisa ser treinado para gerenciar as emoções através do gerenciamento dos pensamentos automáticos negativos.
O ser humano está preparado para lidar com o estresse, mas o estresse contínuo leva a um estado de exaustão emocional. Portanto, fazer pausas através da meditação, oração e contemplação são importantes para a saúde mental, aliviando o estresse e a ansiedade.
Respirar lenta e profundamente, assim como exercícios de relaxamento são ferramentas eficazes no alívio da ansiedade.
Praticar atividade física regular melhora a qualidade de vida, promove saúde física e mental.
O tratamento medicamentoso está indicado quando abordagens psicológicas e comportamentais não são suficientes. Os medicamentos antidepressivos proporcionam melhora dos sintomas de ansiedade, tem o início de efeito lentamente, levando de 2 a 4 semanas para a melhora ser percebida, e devem ser utilizados por aproximadamente um ano. Medicamentos ansiolíticos também podem ser utilizados, neste caso por períodos mais curtos em função do risco de dependência que podem acusar.
Na arte de viver está o desafio de buscar o bem-estar emocional. No caminho da vida encontramos dificuldades próprias da existência humana, entretanto como lidar com os desafios da vida e as dificuldades passa por um processo de autoconhecimento, aprimoramento pessoal e desenvolvimento da resiliência, buscando o equilíbrio emocional, saúde, vida plena e feliz.

Dr. Carlos Henrique M. Costa
Psicóloga Luciana R. Torelli

Referências:
Ansiedade – Como enfrentar o mal do século. Augusto Curi
Mentes Ansiosas. Medo e ansiedade além dos limites. Ana Beatriz Barbosa Silva


O Poder da Ação. Paulo Vieira
Psicoterapias Cognitivo-comportamentais: Um diálogo com a psiquiatria. Bernard Rangé
App Cíngulo. Diogo Lara

4 respostas para “Ansiedade: O que é e como lidar”

  1. Rose disse:

    Ótima matéria!

  2. DENISE DE CAMPOS FREITAS MURÇA disse:

    Parabéns! Deus continue abençoando seu trabalho e sua vida!

  3. DENISE DE CAMPOS FREITAS MURÇA disse:

    Deus abençoe!

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